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ONGs buscam condenar França por não enfrentar crise climática

Thomas Samson/AFP/Getty Images

Processo judicial histórico acusa país de ser responsável por danos

Um tribunal de Paris começou na quinta-feira a ouvir um evento marcante — descrito por alguns ativistas ambientais como “o evento do século” – acusando o governo francês de não fazer o suficiente para deter as mudanças climáticas. O caso faz parte de uma ação judicial iniciada há dois anos por um grupo de ONGs ambientais e apoiada por mais de 2,3 milhões de cidadãos.

Antes da audiência, vários ativistas climáticos fizeram fila perto do tribunal administrativo de Paris carregando uma faixa gigante que dizia: “Somos 2,3 milhões”. Os ativistas e grupos por trás do caso querem que o tribunal responsabilize o governo pelos danos ecológicos no país.

O acordo de Paris assinado há cinco anos visava limitar o aquecimento global a menos de 2 graus acima dos níveis pré-industriais. Donald Trump retirou os EUA do acordo em 2017. Especialistas em meio ambiente dizem que os governos, incluindo a administração francesa, não cumpriram seus compromissos.

Por que o processo foi aberto contra o governo francês?

O caso judicial remonta a 2018, quando quatro ongs ambientais proeminentes — Greenpeace França, Oxfam França, Notre Affaire à Tous e Nicolas Hulot — apresentaram uma queixa formal contra o governo francês, depois que uma petição histórica contra as mudanças climáticas obteve um recorde de 2,3 milhões de assinaturas.

Descontentes com a resposta que receberam, as ONGs iniciaram uma ação judicial em março de 2019, buscando danos simbólicos de apenas 1 euro do governo francês. Junto com o caso, as ONGs apresentaram 100 depoimentos pessoais depois de coletar mais de 25.000 online.

Em seu processo, as organizações acusaram o governo de não cumprir os compromissos assumidos sob o Acordo de Paris e outros acordos climáticos nacionais e internacionais. As ONGs alegaram que o governo havia adiado repetidamente a implementação de políticas para conter as emissões de gases de efeito estufa e limitar o aumento das temperaturas globais.

“As emissões de gases de efeito estufa sob o mandato de cinco anos deste governo caíram a um ritmo duas vezes mais lento do que as trajetórias previstas na lei”, disseram as ONGs em um comunicado conjunto. Os grupos esperam que o governo francês seja responsabilizado pela inação climática após o caso, que abrirá um precedente para outras nações ao redor do mundo.

“Estamos cheios de esperança para esta audiência e a decisão que se seguirá”, disse Jean-François Julliard, diretor do Greenpeace França. “A cereja do bolo seria uma decisão de exortar o Estado a fazer mais para colocar a França de volta na trajetória do Acordo de Paris.”

A França está fazendo o suficiente para combater as mudanças climáticas?

Em dezembro do ano passado, o presidente francês Emmanuel Macron anunciou um referendo para adicionar a luta contra as mudanças climáticas e a degradação ecológica à constituição do país. Ele reconheceu que a França tinha um longo caminho a percorrer antes de alcançar suas metas relacionadas ao clima para conter o aquecimento global.

“Devemos fazer mais? Sim”, disse ele durante um painel de discussão com dezenas de cidadãos franceses. A França ainda está aquém das metas nacionais para reduzir as emissões estabelecidas no Acordo de Paris. Enquanto isso, a Índia é a única nação do G20 que está no caminho certo para cumprir suas metas conforme o acordo.

Um relatório apresentado pelo conselho consultivo independente da França sobre o clima alertou que o governo teve que trabalhar mais para reduzir as emissões de dióxido de carbono no país, pois não havia cumprido o primeiro objetivo oficial de seu orçamento de carbono 2015-18. Durante esse período, as emissões anuais caíram 1,1%, muito menos do que o planejado, informou o Guardian. O governo teria que triplicar a taxa de redução para cumprir suas metas até 2025, afirmou o relatório.

Embora a França tenha prometido reduzir suas emissões em 40% até 2030, especialistas disseram que ela excedeu em muitos seus orçamentos de carbono e não fez o suficiente para tornar os edifícios mais eficientes em termos energéticos, ou para desenvolver energia renovável.

Como o governo francês reagiu ao processo?

O Ministério do Meio Ambiente francês negou que não cumprisse suas obrigações legais para combater as mudanças climáticas e pediu que o caso fosse arquivado, informou a CNN. A França argumentou que não poderia ser responsabilizada “exclusivamente” pelas mudanças climáticas no país.

“A França representa cerca de 1% da população mundial e emite cerca de 1% dos gases de efeito estufa do planeta a cada ano”, escreveu o governo em sua defesa. Argumentou que uma parte substancial da poluição do país vem de “atividades industriais e agrícolas” bem como de “escolhas e decisões individuais que nem sempre é possível influenciar”.

Falando na Cúpula do One Planet, na capital do Quênia, Nairóbi, no ano passado, o presidente Macron disse não acreditar que o processo levaria a qualquer lugar, informou a Reuters. “A solução está em todos nós. Nesta questão, não é o Povo contra o Governo. Esse absurdo deve parar”, disse ele. “Todos nós devemos agir. Os governos devem agir. Grandes empresas devem agir. Os investidores devem agir. Os cidadãos devem agir.

Outros países enfrentaram processos judiciais pela crise climática?

De acordo com um relatório publicado pelo Grantham Institute e pela London School of Economics em 2019, ações climáticas contra governos estão se tornando um fenômeno popular em todo o mundo. Foram iniciadas ações judiciais contra governos e empresas em pelo menos 28 países.

Enquanto os Estados Unidos são líderes em litígios climáticos, com mais de 1.023 casos, o estudo descobriu que outras nações estavam rapidamente se recuperando.

Em 2015, um grupo ambientalista holandês chamado Urgenda Foundation, junto com 900 cidadãos holandeses, processou o governo dos Países Baixos por fazer pouco para prevenir as mudanças climáticas globais. O Tribunal Distrital de Haia ordenou que o país limitasse as emissões de gases de efeito estufa a 25% abaixo dos níveis de 1990 até 2020, achando a promessa existente do governo de 17% insuficiente para cumprir as metas da ONU.

Em outubro de 2019, o governo alemão enfrentou seu primeiro processo de inação climática. Com a ajuda do Greenpeace, um grupo de agricultores alemães entrou com um processo contra o governo depois que eles notaram que seus rendimentos anuais estavam reduzindo devido a secas prolongadas. O tribunal administrativo de Berlim, no entanto, mais tarde rejeitou seu argumento afirmando que uma decisão do Gabinete de 2014 de reduzir as emissões do país em 40% não era legalmente vinculativa e havia sido substituída por novas metas.